Boca Livre - Amizade

Um disco de repertório novo do Boca Livre é sempre ótima notícia para a música brasileira. Ótima e rara: o último lançamento de carreira do grupo, Americana, é de 1995. Depois, vieram trabalhos retrospectivos como Boca Livre 20 Anos (1998), o encontro Boca Livre e 14 Bis – Ao Vivo (1998), o projeto especial Nossos Cantos (feito em parceria com o Instituto Escola Brasil, sem lançamento comercial, em 2001), e ainda o registro de show Boca Livre & Ao Vivo, de 2007 (DVD/CD) com convidados.

Agora, o grupo fundado em 1978 lança Amizade para celebrar mais de três décadas de parceria musical, com um repertório renovado a partir de refinadíssimo garimpo realizado por Maurício Maestro (contrabaixo, violão e vocal), Zé Renato (vocal e violão), David Tygel (viola e vocal) e Lourenço Baeta (flautas, violão e vocal). Divisor de águas no universo dos grupos vocais brasileiros, o Boca Livre trabalha seu abençoado uníssono e os engenhosos arranjos que fãs e ouvidos mais atentos reconhecem imediatamente. Mas sem nostalgia ou repetição de ideias.

A primeira faixa, "Baião do Acordar", é uma composição do baixista pernambucano Novelli gravada pelo autor nos anos 70, junto com Naná Vasconcelos e Nelson Ângelo, e regravada por Egberto Gismonti naquela mesma década. Ao belo trabalho harmônico que traz frescor ao tema, com os pianos (elétrico e acústico) de João Carlos Coutinho, se sobrepõe o cello de Jaques Morelenbaum em belíssima participação.

Em seguida, "Tempestade" aponta para direções atuais e atemporais: parceria de um dos maiores talentos de sua geração, o paulista Chico Pinheiro, com o paraibano Chico César, a canção praieira avança a partir dos toques afromísticos de Armando Marçal e do apelo exótico do duduk (instrumento de sopro da Europa Oriental e do Oriente Médio) de Zé Nogueira, desembocando no desenho brasileiríssimo de Danilo Caymmi à flauta.

A linda "Terra do Nunca", de Edu Lobo e Paulo César Pinheiro, é um achado e tanto: fez parte da trilha sonora de uma montagem teatral de Peter Pan que Sura Berditchevski dirigiu nos anos 90, mas permanecia inédita em disco. O arranjo totalmente acústico (Jorge Helder no baixo, Cristóvão Bastos ao piano), com destaque para as flautas de Lourenço Baeta e o cello de Iura Ranevski, tem a marca registrada do Boca Livre, com amplo espaço para o brilho vocal coletivo. Também pescada dos anos 80 – foi gravada por Zizi Possi -, a balada "Mistério do Prazer", composta por Zé Renato, Claudio Nucci e Juca Filho, explora um outro lado do trabalho do grupo, com a participação especial do guitarrista Ricardo Silveira e um doce sabor do pop à James Taylor.

A viagem inspirada pelo espírito livre de outros tempos prossegue na quinta faixa, "Rio Amazonas" uma joia originalmente escrita e lançada por Dori Caymmi em 1988, ainda em versão instrumental e registrada por Zé Renato com Renato Braz em 2010, já no formato com letra de Paulo César Pinheiro. Épica, a canção é valorizada pelo tratamento Boca Livre em seu sobrevôo de paisagens nacionais, e faz lembrar eras douradas da música popular brasileira.

A proximidade do grupo com Minas Gerais é revalidada por "Paixão e Fé", canção de Tavinho Moura e Fernando Brant que Milton Nascimento gravou no clássico Clube da Esquina 2. A releitura, porém, veleja por vertentes diversas, tanto no acordeão de João Carlos Coutinho quanto nos discretos efeitos de guitarra de Jr. Tostoi. O talento de Maurício Maestro, com singular capricho nos detalhes, fica expresso em sua composição "Água Clara". Definida como uma guarânia moderna, a canção flutua quase etérea e evoca paisagens celtas e andinas nas flautas de Lourenço Baeta, guardando as maiores belezas vocais para o final.

O fecho do disco é "Amizade", escrita por Mauricio Maestro com Marcos Valle, que participa tocando seu piano de assinatura pessoal. A rara parceria na verdade é um reencontro de dois velhos colaboradores – Maurício é autor do primeiro arranjo de "Mustang Cor de Sangue", de Marcos e Paulo Sergio Valle -, e reafirma uma sintonia entre modernizadores da música brasileira. Trinta e quatro anos depois de revolucionar rimando independência com sucesso de massa – o disco de estreia, autointitulado, vendeu mais de 100 mil cópias -, o Boca Livre avança sem perder a imensa delicadeza.

Pedro Só

JUL 08Sexta, 23:00
Fortaleza - CE
BNB Clube


JUL 09Sábado, 21:00
Natal - RN
Teatro Riachuelo


JUL 15Sexta, 21:00
Recife - PE
Teatro de Santa Isabel


JUL 16Sábado, 21:00
Caruaru - PE
Outra Bossa


AGO 12Sexta, 22:15
São Luís - MA
Praça Maria Aragao

8º Lençóis Jazz e Blues Festival


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Foto de Frederico Mendes

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